
D. Henrique
Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio.
Canto mais belo não há – diz Tia Adélia.
E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela.
D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim.
Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esconjura já no apelido: Deus-Me-Livre. O nome D. Henrique, homenagem ao audaz navegante. Não tinha cruzado os mares, arrostado perigos, tempestades, naufrágios? Certo que não: canário-da-terra, muito nosso, desta beiradinha de sertão. Amarelinho, o amarelo vivo, lindo, jamais visto – tirante a laranja, mas a gema do ovo, a gema do ouro. Com o cinza descendo nas costas, crescendo, até a cauda – manto real. E o canto, de maravilha. Certo que de um outro mundo, de sonho, da fábula.
A Mocinha era a dona – por isso feliz, feliz como um passarinho. O gorjeio de D. Henrique, o sorriso nos olhos da Mocinha – um namorinho, às escondidas. Ah, ninguém não saberia dos trinados do seu coraçãozinho, a sua paixãozinha. Sabe, eu tenho um passarinho – queria contar. As palavras não dizem o sentimento – todo mundo tem um passarinho. A verdade se imagina – o coração no poleirinho, que balanga pra cá, pra lá.
Ao Nando, o noivo, sentado sério na varanda – Sabe, eu tenho um passarinho. Os olhos dele, de surpresa – o que demais? D. Henrique sacode as asinhas, estufa o peito, as peninhas de ouro. Ah, sei – diz o moço: – É um passarinho de ouro. A Mocinha ofendida, lá com ela. Não é só isso não. Ele nem não existe, de tão bonito. O pensamento tão gravezinho, o Nando nem não entende. Consola – É muito lindo, sim, o canarinho. Não via quem não queria, só de brincadeira que falou. Se ela dissesse: Não se brinca com o sentimento dos outros, Nando. A cara morena dele tão perto – precisava que falasse de amor? E se fosse de brincadeira? Não pensava muito, não. Se encosta, dizendo, o que nem carecia: Nando – eu, você. D. Henrique pula que pula, o biquinho treme na melodia que só ela sabe – batendo palmas no jeito bem dele. E o Nando – Não é que esse passarinho canta bonito? É diferente, não tinha reparado. É até inteligente – ela pensa.
Você põe o dedinho, provoca. D. Henrique vem com o biquinho, as bicadinhas. Bravinho, se arrepiando inteirinho – ou era só que estaria brinca-brincando? Os azuis do céu, a capricho – límpido, livre: a alegria do canarinho, mesmo se bravinho. A Mocinha treme os labiozinhos, estralozinhos, a lingüinha, arremedo de assobio – Assim que se canta, D. Henrique. E D. Henrique, garboso, vestido no seu manto do maior orgulho, trina que trina e trina – como que uma caçoada! – os mais belos trinados. Dedinho no pescoço, na cabecinha – num agrado, o elogio merecido? Não deixa não. De um a outro poleiro, o balanço arisquinho. Elogio? É o meu natural, não precisa não. Folhinha de almeirão? Ah, sim. Mas me ensinar? Isso não. Nasci sabendo, com o sangue. A longa viagem, escura – viu a luz, que lindos gorjeios! Que vida rebentava daquele peitinho! As peninhas de ouro brilhando no sol. Dona Mocinha, trocar minha agüinha? Um banho molhadinho, espanejar mil pozinhos d’água no ar. Esse beicinho, Dona Mocinha? Me dar um beijinho? Muito agradecido – o imaginado é já o sentido. Tri e tri e trinos de luz, claridade, suavidade! Nosso namorinho, Dona Mocinha.
Seu Nando manda dizer que hoje demora mais – o recado, grave. Que novidade! Caçar um jeito de não ouvir o tempo, o de sempre – os dedos delicadíssimos no bordado do enxovalzinho. A calma tristeza sentada na varanda – só D. Henrique vê, solidário, distraído da cantoria que quer sair, explodir na lindeza da tarde clara. Horas sem fim bordando a solidão – tão monótona a espera! Por que será que o Nando demora tanto? Madornando, fecha os olhitos. Desperta com os cuidados – Que seria? Uma desgraça? Madornando, desperta: os trinos agudos, estridentes, tanta alegria, D. Henrique até desafina! Se fosse possível! A Mocinha abre um sorrisinho – Tenho você, D. Henrique. Mas repreende – Estou triste, D. Henrique! Tri, tri, triste? Tri de trinados e trinados, alegres embalando a tarde! Colorindo, perfumando a alegria – Teu noivo chegou! Teu noivo chegou! O Nando – sujo, suado – traz o seu sorriso bom. Cansado, o jeitão aborrecido, por trás o gosto do encontro, curto – Já são horas, logo vou chegando.
O Nando implicava com D. Henrique – Como que vigia a gente, segurando vela, oras! Tem ciúmes – pensava a Mocinha. Uma pontinha de orgulho se acendia nos olhinhos – Tem ciúmes de mim, sim, sim! O Nando implicava, desimplicava – a Mocinha via os olhos dele bulindo: a mãe vinha surgindo na varanda, com café, bolinhos, ou o pai procurando, pretextando os dois dedos de prosa, as honras da casa – D. Henrique dava o aviso, apartava os dois pombinhos. Inteligente, sim senhor! E amigão! Pois é, o Nando nem se desgostava mais com o canarinho. Mas deu de inventar outra implicância: Não gosto de passarinho preso não – falou. A Mocinha até pensava: Fala com franqueza. Desgosta de verdade! Foi pensando. Com o pensamento, quem é que pode? Entra na ideia, sem nem pedir licença. Não sai mais não – preocupaçãozinha cresce que cresce: Meu D. Henrique, infeliz na prisão! Meu prisioneiro, coitadinho. Isso não se faz – desumano, cruel demais. Chorou sentida, magoada nas cordas mais doloridas da sua almazinha ingênua. Soltar D. Henrique – ficar tão sozinha! Um pedaço de mim! É tudo que eu tenho – minha fábula encantada! Não soltar? Não pode ser! Eu não sou tão má. Não tenho tanta ruindade. Como se matasse um pedaço de mim! A Mocinha balangou, balangou – a gangorra da indecisão, as rodas do monjolo plec, plec, a mão do pilão puf, puf! roendo o seu coraçãozinho.
Soltou D. Henrique. Aberta a portinhola – um adeus choroso, demorado, engasgando as palavras na garganta, nem D. Henrique cantava. Vai, amorzinho. Vai, meu tesouro – antes que eu mude de ideia. A cabecinha fora da porta – D. Henrique olha à esquerda, à direita, assuntando. A Mocinha descuidou – lá se foi ele. Adeus! Adeus! Pousa na roseira florida, que lindo! Mas cuidado, D. Henrique – cuidado os espinhos. Ai, meu Deus! Ele não conhece o mundo lá fora. Tantos perigos! Não vai resistir. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei D. Henrique para a morte? D. Henrique saltita na laranjeira, na cerca, na jabuticabeira – o trinado claro, nunca tão lindo! A Mocinha vê, de longe – os olhinhos marejados, a dor bulindo naquela aguinha. D. Henrique voa, avoa – some-se no azul. Livre – isto a liberdade! Ingrato – tanto que era amado! Ingrato nada – livre, é o que é. Liberdade, o dom precioso! A Mocinha abraça o Nando – tantas lágrimas, e contidas: inda um esforço de mostrar alegriazinha. Abraça a mãe, abraça o pai – Deixa, menina, que ele volta. Ah, pai: deixa ele ser livre – a Mocinha engole a lagrimazinha. Há uma dorzinha neste mundo, ninguém não vê, enorme, enorme.
Quando D. Henrique voltou – Meu castelo, meu lar! – nunca mais porteirinha fechada. D. Henrique senhor do mundo, livre, trina, trina os límpidos cânticos da liberdade! A Mocinha não cabe em si, tão feliz! Um sorriso largo, livre – livre é uma palavra tão linda! A Mocinha casou, saiu da Fazenda Gabirova para a Fazenda Pau d’Alho, foi feliz. Há dessas histórias de amor, perfeitas, neste planeta. O Nando pegou amor no bichinho – preparava o ovo matutino, limpava a gaiolinha, na tardinha regava o canteirinho de almeirão: D. Henrique não tinha do que se queixar. Uma canarinha – que maravilha de canarinha! Quatro ovinhos, quatro! Nenhum vingou, D. Henrique nem viu. Governava o seu reino, navegante nas águas da alegria. A Mocinha vai se lembrar, por toda a vida! Houve tempos difíceis – os primeiros, depois melhoraram – mas foram tão bons! Ela sempre vai se lembrar. Nas bodas de ouro – rodeada dos muitos filhos, netos, bisnetos – ela vai se lembrar. Ela, o Nando! D. Henrique, Sua Majestade, a nobreza nas peninhas de ouro, penugenzinha, fino pozinho de ouro borrifadinho! O gorjeio de ouro tremulando claro, alto, léguas em redor, leve, livre, límpido – D. Henrique, a rica mágica: este mundo encantado!























